sábado, 17 de julho de 2010

No Mesmo Colchão

Para
Porque eu não quero pular da ansiedade para a dor
Porque eu não quero sentir a tristeza sem sentir o amor
Porque eu não quero te ver de longe aonde quer que eu for

Volta
Porque é difícil demais viver sem seu calor
Porque é humano demais andar com tanto medo
Porque um dia tudo acaba e eu quero mais

Assusta
Quando eu menos esperar, diz que cê volta
Quando tudo mudar, diz que vai ficar
E diz que muda, mesmo que for mentira

Mente
Porque a mente da gente não se importa, não
Se há felicidade, não há reprovação
A gente aceita e se deita no mesmo colchão

Tenta
Quando nada mais dá certo, a gente volta atrás
Inventa uma nova verdade, faça o que você faz
Que qualquer coisa eu peço arrego, eu peço perdão

Me diz, diz que diz
Que tudo vai ficar bem
Que não há nada a temer
Ou qualquer outro clichê

Eu te imploro
Eu te peço
Eu preciso
De qualquer outro clichê

Mente
Porque a mente da gente não se importa, não
Se há felicidade, não há reprovação
A gente aceita e se deita no mesmo colchão

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ilha

Juntando água de chuva
Furando côcos, um a um
Passando lama na pele
Esforço inútil é esforço algum

Tentei o máximo que pude
Onda a onda, sem açude
Sem ter um amigo, um divã
Sem ter a saída da mãe

Risquei três letras na areia da minha praia.

O último fósforo.
Se puder me ouvir, se vier,
Alguém, qualquer um,
Salve minh'alma, se houver.

Eu tentei pedir socorro
No décimo oitavo dia em jejum
Falhei, na areia fina
Só tinha IRA, não tinha SOS algum.

Às vezes a gente não entende
Que está preso na ilha
Porque é a ilha que prende a gente.

sexta-feira, 26 de março de 2010

"Talvez"

Talvez eu fuja
Talvez eu finja
Talvez eu seja
Talvez eu sinta

Talvez eu mate
Talvez eu suba
Talvez eu morra
Talvez eu suma

Talvez eu pire
Talvez eu escreva
Talvez eu pare
Talvez eu leia

Talvez eu vague
Talvez eu siga
Talvez eu tente
Talvez consiga

Talvez eu meça
Talvez eu esqueça
Talvez eu lembre
Talvez eu perca

Talvez eu corra
Talvez eu falte
Talvez eu assuste
Talvez me encante

Talvez eu ouça
Talvez eu diga
Talvez eu saiba
Talvez omita

Talvez eu lute
Talvez eu ceda
Talvez esteja
Talvez me iluda

O talvez me muda.

terça-feira, 23 de março de 2010

A Ponte

Se afaste o quanto quiser
O quanto puder
Vá longe como a gravidade nunca imaginou,
Nem você.
Fuja, fuja pra onde for
Force-se a ir além, mas não duvide de mim.

Não duvide que eu vá me aproximar.

Seja pela mão, utilidade do braço
Seja pelo pé, raiz da perna
Seja pela palavra, caminho do coração

Seja como for, formarei uma ponte
Pra ligar, pr'atravessar,
Pra ir daqui a qualquer lugar,
Te encontrar e te deixar
Voltar.

Basta apontar.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Manhã

Tivemos tudo
Inclusive o nada
E nos privamos de nadar
No mar das coisas que eu não conhecia.

Agora, cada um na sua,
Uma madrugada surge devagar
E nunca que uma manhã
Vai existir antes do sol raiar.

E agora o tempo passa
E passa a vontade de não te tocar
A vida deixa uma marca no seu corpo nu.

Estamos todos esperando uma chance de mudar
Eu vejo todos esses dedos que não vão facilitar
E um dia se eu acordar de um sono
E ver que nada ao meu redor é sonho
Eu torço pra fazer valer
O dia em que eu pus o pé no chão
Espero qualquer rima pobre; alma; coração.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Explicação

Nunca pensei
Que pudesse ser tão difícil assim
Carregar um pouco menos
Me livrar um pouco de mim

Nunca tentei
Mais do que o suficiente pra nunca errar
Pra não me destacar
Pra não dizer "não sei"

Nunca mudei
Tanto a ponto de desejar parar
E não acho que um dia eu vá
Chegar àquilo que realmente eu quero ser

Nunca mirei
Só por mirar, pra tentar assustar
Pra não precisar avançar
Pra não sair do lugar

Nunca andei
Por onde eu soubesse passar, pra onde eu soubesse chegar
Pra não olhar a paisagem
Andar só de passagem

Nunca parei
De repente como se chegasse ao fim
No meio do caminho, fazendo fila atrás de mim
Perdendo de vista o que fugia

Nunca cheguei
E isso eu já disse antes
No meu destino, nem sequer estou no caminho
Mas um dia pretendo estar

Nunca achei
Que você fosse voltar antes tarde do que nunca
Que você fosse alguém que não muda
Ou que você fosse qualquer pessoa

Nunca pensei em tentar mudar
Nunca mirei antes de andar
Nunca parei ao chegar
Nunca achei
o que eu vim procurar (?)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pra Começar

2010...
alguns fatos escondidos por trás do que possa ser eufônico:

quatro da manhã e a máquina
um estacionamento de carros à luz do passado
minha mãe me deita no colo dela e se questiona
a mudança

toda aquela baboseira sobre o interior importar mais
-repito: é baboseira.

a máquina me mudou
ela e tantas outras
e de fora a fora, de um rosto a outro, tudo aquilo que estava escondido
são as preocupações que não posso mais esconder
pra não me sentir culpado eu queimei as evidências
enterrei-as fundo por sob a derme
ninguém pode mais lê-la como à minha mão
é apenas um interlúdio entre os olhos e a meia-escuridão


pode não parecer,
mas parecer ajuda a ser
tanto quanto ser
pode ajudar alguém a não perecer.




se eu puder prometer alguma coisa sem culpa
faço a promessa de não mais prometer
-chega de jurar a mim mesmo uma certa identidade.

de agora em diante o meu não-ser, será a minha personalidade.